Comportamento
O inconsciente fala
07/04/08
Entenda os sonhos e melhore a sua vida
Por Ana Paula Rodrigues
A chave para resolver diversos problemas do dia-a-dia pode estar nos seus sonhos. De acordo com a psicanálise, eles revelam mensagens de alerta do inconsciente. “Os sonhos não são simplesmente o reflexo do que acontece na sua vida”, explica a especialista em psicanálise junguiana Vera Dantas. De acordo com ela, os símbolos apresentados nos sonhos podem revelar conflitos internos, como um medo ou uma expectativa.
Mas, para compreender os sonhos é necessário decifrá-los, isso porque eles não trazem mensagens claras, mas sim representações. Por isso, é importante cuidado para não associar esses símbolos a interpretações sem o mínimo de ligação com a realidade. “Tudo precisa ser contextualizado. Não podemos dizer que sonhar com um dente, por exemplo, significa que alguém próximo vai morrer. Isso é muito simples, genérico e não explica nada”, alerta Vera. “O dente é uma parte da estrutura do corpo. Portanto, perder dentes está ligado à desestruturação, que pode significar um momento de instabilidade financeira ou profissional, por exemplo.”
Com base em estudos e análises de diversos sonhos, a terapeuta aconselha que esses recados não sejam ignorados. “É o inconsciente falando com a gente. Os sonhos fazem você refletir sobre a própria vida e podem te alertar sobre algo que está errado”, explica. Não dar atenção a esses recados, pode tornar os sonhos recorrentes e até mesmo fazer com que eles se tornem desagradáveis. “Pesadelos são sonhos com mensagens fortes. Você acorda apavorada para não esquecer mesmo. É como se o seu inconsciente dissesse: prestou atenção agora?”
A própria terapeuta dá um exemplo. “Há alguns anos eu sonhei que estava parada no semáforo verde. Enquanto olhava pelo retrovisor via um homem pulando um muro. Um dia, estava indo para a joalheria onde trabalhava, parei no sinal e vi um carro parado na direção da loja. Como a gente tinha um histórico de vários assaltos, desconfiei e liguei para a polícia. Houve uma troca de tiros e dois ladrões foram presos. Quando cheguei na delegacia, me lembrei imediatamente do sonho e comecei a chorar. Foi como se eu estivesse mais alerta por causa dele.”
E as pessoas que não sonham? “Esse canal de comunicação pode não estar aberto, às vezes acontece. À medida que você começa a entender esse aspecto mais profundo e se sente grata por sonhar, os sonhos se tornam cada vez mais comuns.”
Como entender os sonhos
O primeiro passo é anotar os sonhos em um caderno com o máximo de detalhes que puder se lembrar. Se possível, converse com alguém sobre eles - isso pode ser útil para trazer mais informações a sua mente.
Os sonhos não podem ser analisados fora do contexto em que a pessoa está inserida. “A partir dos símbolos apresentados, a gente começa a trabalhar o que seria aquela mensagem”, explica a psicanalista. “A mensagem tem uma relação específica com a vida de cada um.” Como no caso da jornalista Marilia Taufic. Ela conta que uma vez sonhou que fazia uma longa viagem em um carro apertado com suas tias e sua bisavó, que tinha uma aparência doente. No final da viagem, ela chegou a um salão de festas. Nesse momento, se sente aliviada por ter espaço e vê sua bisavó melhor, mais firme e sorrindo para ela. Para entender o sonho, é necessário saber quem são as pessoas envolvidas nele. “Vejo em minhas tias mulheres dependentes do meu avô. Uma delas nunca trabalhou. A outra teve um casamento desastroso e deixou São Paulo para ficar perto da família no interior. O meu padrão feminino eram essas mulheres e eu sempre tive pavor de ser como elas”.
Analisando essas informações inseridas no contexto dela – próximo da formatura da faculdade e prestes a parar de trabalhar – o sonho ganha sentido. “O sonho me fez ver que aquelas mulheres eram uma extensão de mim, pois, apesar de que querer ser livre sou dependente, principalmente no aspecto emocional, do meu pai. Quando minha avó aparece sorridente para mim depois que eu me livrei do sufoco do carro, meu inconsciente me mostrou que eu estava pronta para ser essa mulher que eu queria”, conclui.
Exemplos de interpretações
“Uma mulher do nosso grupo de análise relatou um sonho no qual ela ficava na dúvida se ia para o trabalho a pé ou de carro. Se ela for de carro e dirigindo, quer dizer que ela está conduzindo a própria vida, se for de carona quer dizer que não a controla”.
Morte: geralmente não nos vemos morrendo. Isso acontece porque para a nossa estrutura psíquica é difícil criar essa representação. Pode significar um desejo de mudança.
Voar ou correr: é bastante comum às mulheres. Quando você não consegue correr, pode ser que algum obstáculo esteja dificultando a sua vida e você sente necessidade de superá-lo.
Perseguição: sentir que tem alguém te olhando, tentando entrar na sua casa ou te seguindo pode indicar uma necessidade de mudança de estado psicológico. Por exemplo, uma mulher que sente vontade de terminar um relacionamento, mas ainda tem dúvidas. O sonho revela esse empecilho. Significa que a parte masculina da mulher, também chamada de sabotador interno, mostra que ela ainda não está pronta para tomar aquela decisão.
Dirigir: vontade de tomar um rumo próprio na vida. Estar de carona pode indicar que você ainda não é independente.
Banheiro: é aonde todos revelam suas intimidades. Em geral, demonstra que a pessoa pode estar despreparada diante de uma dificuldade em se conseguir a maturidade e o crescimento pessoal.
Dicas de livros que explicam os sonhos
“O caminho dos sonhos”, de Marie-Louise von Franz (Ed. Cultrix, 248 páginas, R$ 28,50): escrito por uma das mais conceituadas estudiosas da psicologia analítica, o livro aborda os sonhos de forma simples com a estrutura de pergunta e resposta. É uma ótima opção para os iniciantes.
”Jung e a interpretação dos sonhos”, de James Hall (Ed. Cultrix, 160 páginas, R$ 19,50): é um livro mais técnico, mas que pode trazer boas orientações para quem quer se aprofundar no assunto.
Entenda a psicanálise junguiana
Carl Jung (1875-1961) foi um psiquiatra suíço. Para ele, o inconsciente coletivo pode se sensibilizar por certas imagens e símbolos de apelo universal – os arquétipos. Dessa forma, quando nossa consciência fora de ação durante o sono , esses sentimentos e imagens são lançados à mente e, se analisados, podem revelar desejos reprimidos, traumas e fatos que podem não ter sido gravados pela memória quando vistos, mas que de alguma forma permaneceram no nosso inconsciente.
Jung realizou diversas pesquisas com Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicanálise. Eles trocaram informações sobre seus sonhos, análises e casos clínicos. Mas, a amizade e o estudo científico foram interrompidos por algumas diferenças fundamentais. Jung não aceitava a afirmação de Freud de que os conflitos psíquicos envolviam traumas de natureza sexual, assim como Freud não concordava o interesse de Jung nos fenômenos espirituais.
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