Comportamento
Depressão pós-parto
30/04/08
O que é, quais os sinais e o que fazer se a maternidade não for um momento tão feliz
Por Ana Paula Schleier
A espera por um filho é um período feliz e idealizado por muitos casais. A mulher ainda carrega um peso e uma expectativa maior, por carregar aquela nova vida dentro do próprio corpo. Contudo, o nascimento de um bebê pode vir acompanhado das mais fortes e inexplicáveis emoções. Afinal, é a partir desse momento que as pessoas deixam de viver sozinhas, tendo de compartilhar seu tempo, atenção e disposição com um outro ser.
Felicidade abalada
Após dar à luz, é comum a mulher passar por um período mais sensível, conhecido como baby blues ou pós-parto blues. É uma situação transitória, em que a mãe sofre alteração de humor, sente-se incapaz de cuidar do bebê, não tem confiança em si mesma. Entretanto, alguns casos podem se mostrar mais complicados do que parecem, caracterizando, assim, uma depressão pós-parto. “É uma depressão reativa, em que a mulher consegue ser funcional, pode fazer coisas com o bebê, mas não investe nele, por estar ‘desabada’”, explica Eloisa Lacerda, psicanalista e coordenadora do Serviço de Aconselhamento da Relação Mãe-bebê da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “Ela fica impossibilitada de curtir o neném”, completa. No mundo inteiro, quase 20% das mulheres que deram à luz sofreram desta depressão. “A incidência é maior do que se imagina”, afirma a psicanalista.
Propensões
Não é possível definir claramente as causas da depressão pós-parto. Alguns fatores, entretanto, podem influenciar a parte emocional da mulher. Um deles é a mudança que ocorre com o nascimento de uma criança. Após ter o bebê, a vida da mulher dá uma guinada radical. A agora mãe acha que vai ter o controle de tudo, porém a ilusão termina. “Ela pode resolver ter o neném achando que ele é mais uma responsabilidade, que ela dará conta, mas quando nasce se sente impotente, a expectativa que tinha acaba”, explica a psicanalista. Há também causas originadas à época da mãe quando bebê. Ela pode transferir, inconscientemente, experiências vivenciadas quando pequena para seu filho recém-nascido. Ainda existem outros fatores que podem ser considerados agravantes, como a morte de alguém querido durante a gestação, histórico depressivo da mãe e até mesmo a perda de conquistas. “Há casos de mães que batalharam muito por um emprego, engravidaram, tiraram licença e ao voltarem tinham perdido o posto”, conta Eloisa.
Sinais
As mulheres reagem cada uma a sua maneira a esse período de depressão e o comportamento pode depender muito da retaguarda e do amparo tido por ela. Há formas mais brandas de manifestações, como tristeza, falta de vontade de realizar as atividades diárias, querer ficar quieta. “Quando está deprimida, a mulher se encolhe nela mesma, esquece amigos, trabalho, os outros”, explica Eloisa. “Ela se volta para ela mesma, mas de um jeito negativo, achando que é ruim, fracassada, que não tem nada de bom para oferecer”.
A mãe transparece não conseguir cuidar de seu bebê. Em níveis mais difíceis da depressão, ela passa a se identificar com o desamparo do recém-nascido, como se ali estivessem duas crianças desprotegidas. “A mãe é quem pensa e cuida da criança e quando a mulher percebe que não pode dar essa proteção a seu filho, isso pode mexer tanto com ela que passa a nem quer ver a criancinha”, explica a psicanalista. “Pra mim, a depressão veio em forma de superproteção, fiquei neurótica, só pensava coisa ruim”, conta Roberta Martins*. “Cheguei a sair às duas da manhã pra levar meu filho ao médico, e ele não tinha nada, mas eu sempre achava que tinha alguma coisa errada, tinha medo de que se eu não o levasse ao médico alguma coisa ruim ia acontecer”, completa.
Combate
A primeira coisa a ser feita é ajudar a mulher a se encontrar. É importante mostrar que emoções e sentimentos confusos no pós-parto são comuns, muitas mães sentem insegurança e impotência ao terem o filho nos braços. A ajuda de um profissional é igualmente necessária, pois muitas vezes a família não percebe o que está acontecendo. Em casos mais graves, são indicados antidepressivos como tratamento. Além disso, o apoio das pessoas próximas a ela é essencial. “É importante que tenha uma pessoa que possa ajudar a mãe, pra que ela invista um tempo nela, alguém que a elogie quanto ao filho, que a acalme quanto as ansiedades”, completa Eloisa. A psicanalista ainda chama atenção para um fato que não passa na cabeça de muitas pessoas: “Às vezes, ter um filho não é a coisa mais maravilhosa na vida de uma mulher”.
Depoimento
“Meu filho era muito bem-vindo, mas assim que nasceu, comecei a ficar muito emotiva, chorona. Eu não sabia o motivo da minha tristeza. Sempre fui alegre. Nunca deixei de fazer minhas coisas durante a gravidez. Eu também tinha medo de dar banho na criança, tinha medo de machucá-lo, mas achava tudo normal, por ser mamãe de primeira viagem. Mas não melhorei. Fui a uma ginecologista e ela disse que eu passava por uma depressão. Não queria tomar remédio, porque precisaria interromper a amamentação e amamentar era meu sonho. Resolvi não tomá-lo, achei que conseguiria superar por mim mesma, afinal, não tinha motivo para me sentir daquela maneira. Tentei fazer de tudo, mas a agonia era muita. Começou a piorar. Eu não conseguia sair de casa, só queria dormir, não queria ver ninguém. Com relação ao filho, não conseguia deixá-lo com outras pessoas, tinha que estar sempre comigo. Achava que alguém iria roubá-lo de mim. Não descia nem no prédio para tomar um pouco de sol com ele, com receio de que pegassem o carrinho e fossem embora. Ninguém podia pega-lo, chegar perto, falar muito próximo dele. Lembro que minha mãe contratou uma moça pra trabalhar em casa e, uma vez, fui até o mercado perto de casa e ao voltar encontrei a mulher com meu filho no colo. Me deu uma raiva tão grande que expulsei a mulher da minha casa. Eu gritava ‘ não põe a mão no meu filho!´. Tomei remédios depois de 3 meses de depressão. Após 2 semanas me sentia melhor. Consegui voltar a trabalhar. Reduzi a dose, melhorei, aí resolvi largar de vez o remédio. Depois de 6 meses houve uma recaída. E foi bem pior. Hoje ainda estou em tratamento, que é longo. Meu filho vai fazer três anos. Hoje, ele sai, brinca com os amiguinhos, eu o levo em festinhas. Penso em ter outro filho, mas como foi muito ruim, tenho medo...” – Roberta Martins
* nome fictício
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