Comportamento
Me perdoa?
26/05/08
O que é o perdão e qual o papel dele nas nossas vidas
Por Ana Paula Schleier
Quem nunca passou pela experiência de ter ofendido alguém e, por isso, tenha tido que se desculpar? Ou o contrário: ficou com a difícil tarefa de perdoar uma pessoa por ela ter feito algo que deixou você chateada? Em ambos os casos, uma única palavra entra em discussão, trazendo toda a sua complexidade de sentidos: perdão. Esta palavra tende a aparecer nos momentos mais diversos, de um tropeção na rua a grandes e famosas traições. Todos se lembram do caso do ex-presidente americano Bill Clinton com a estagiária Monica Lewinsky, devidamente perdoado pela esposa dele, Hillary, que hoje conta com uma grande ajuda do marido para tentar concorrer às eleições presidenciais dos Estados Unidos. A vida está, sim, cheia de tropeços que temos que aceitar - e alguns os quais precisamos que aceitem por nós. Mas afinal, o que é o perdão e qual sua importância na vida das pessoas? Sentido
Pedir perdão é um ato de remissão. “Corresponde ao reconhecimento da falta cometida e da ofensa causada a alguém, só havendo perdão, assim, quando há culpa explicita”, explica Josias Pereira, professor de aconselhamento pastoral e de psicologia da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista de São Paulo. Já para quem perdoa, existem diversos fatores envolvidos. “A maioria das pessoas pensa apenas na religião, mas há ainda a questão jurídica, emocional e psicológica”, afirma Alexandre Bez, psicólogo especialista em relacionamentos. Ele explica que para a psicologia, o perdão é considerado um sentimento nobre, intimamente ligado à ética e à moral, e que remete à dor, demandando, por conta disso, muita reflexão por parte de quem o concede. No campo religioso, o ato de perdoar decorre do reconhecimento da fragilidade humana, e a religiosidade leva a pessoa a aceitar e compreender suas próprias fraquezas. “Isso pode influenciar em seu cotidiano, tornando-a suficientemente humilde em oposição a onipotência natural na psique humana”, conta Josias.
Sem perdão
Por julgarem suas opiniões como corretas, algumas pessoas não conseguem perdoar. “Há comportamentos que são produtos de exigências perfeccionistas - muitas vezes irracionais e individualistas - que atuam em defesa de idéias ou princípios”, explica o professor. A formação de caráter é determinante na hora de se acolher um pedido de perdão. “Quando uma pessoa é muito rígida, sabe bem o que quer e tem seus princípios claros pode ser que não perdoe, isso porque ela não se imagina cometendo algum ato que necessite ser perdoado”, explica Alexandre. Há ainda indivíduos que não conseguem passar por cima de algumas mágoas por terem medo de sofrer novamente. A confiança na outra pessoa fica abalada e é comum haver um pé atrás ao pensar em se relacionar com ela novamente. “Elas não querem reviver o trauma”, completa o psicólogo.
Além de sofrer por conta da mágoa, quem passa pela situação de ter de perdoar alguém e decide por não o fazer pode ter que lidar com conseqüências. Mudanças nos traços de comportamento e temperamento são algumas delas. “A pessoa fica taciturna e carrancuda, pode desenvolver um comportamento ansioso e depressivo”, afirma Alexandre. Além disso, muitas acabam buscando compensações no cigarro, na bebida e até mesmo nas drogas.
Perdoar ou ser perdoado: o que é mais difícil?
Pra quem tem de perdoar, a missão é sempre mais difícil. A outra pessoa, a que clama por desculpas, segue seu rumo. “É bem assim: tentei, não deu, parte pra outra!” , explica o psicólogo. Pode ser até mesmo uma desculpa psicológica: a pessoa sabe que não será perdoada, mas para deixar a consciência limpa, ela tenta mesmo assim.
Perdoar e esquecer caminham juntos?
O fato de alguém perdoar não significa necessariamente que esquecerá da ofensa recebida. “Quem fala que esquece está mentindo”, diz Alexandre. A pessoa pode não perceber, mas ao menos no inconsciente o episódio e o sentimento de mágoa permanecem. “Isso pode se manifestar em sonhos e em lembranças, ao ouvir música, ao ver alguma coisa que remeta à pessoa”, conclui.
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