Comportamento
Cleptomania, você sabe o que é?
11/08/08
Não confunda cleptomaníaco com ladrão: saiba como identificar os sintomas deste mal
Por Vera Giglio
“A cleptomania caracteriza-se pela recorrência de impulsos em furtar objetos desnecessários para uso pessoal ou por seu valor monetário e, infelizmente, o indivíduo não consegue resistir a esse impulso”, define o psicólogo da Universidade Federal de São Paulo e coordenador do SOS TOC Armando Rezende Neto.
Esse raro transtorno, de acordo com relatos de consultórios, ficou popularmente conhecido depois da exibição de uma novela da Rede Globo, América, na qual o tema foi abordado pela autora Glória Perez e vivido pela atriz Christiane Torloni. “A prevalência da cleptomania ainda não é conhecida, estima-se que varia entre 3,8% a 24% dos indivíduos detidos por furto. É um transtorno raro, mas não se sabe ao certo se a causa é porque sua ocorrência é pequena ou porque a procura por um tratamento adequado ainda é barreira para os cleptomaníacos”, explica Armando.
Ciente deste mal, o DNA Mulher conversou com profissionais da área legal e de saúde para esclarecer algumas dúvidas e fornecer importantes informações sobre o assunto.
O que desencadeia
Segundo Armando Rezende Neto, existem fatores psicológicos, em que os sintomas tendem a aparecer em períodos de estresse significativo, como perdas, separações e término de relacionamentos importantes. Seu início, segundo alguns autores, está ligado a impulsos agressivos mal resolvidos na infância do indivíduo. A cleptomania também pode ser desencadeada por fatores biológicos, que estão relacionados a doenças cerebrais, com hipóteses de perturbações no metabolismo das catecolaminas, um tipo de neurotransmissor.
Características do cleptomaníaco
“Os cleptomaníacos, em geral, são pessoas instruídas e com dinheiro para pagar pelos objetos que furtam impulsivamente. O furto não é planejado e nem envolve outra pessoa”, relata o psicólogo. “Eles nem sempre consideram a possibilidade de serem apanhados. Às vezes, sentem culpa ou ansiedade após o furto, mas não sentem raiva ou desejo de vingança. Os cleptomaníacos têm sérios problemas com relacionamentos interpessoais e, de modo freqüente, mostram sinais de perturbação na personalidade”, completa.
É muito importante não confundir um cleptomaníaco com ladrão. “O portador desse transtorno não pode ser considerado um criminoso, pois ele sofre de um mal clínico, uma doença que precisa de ajuda para ser controlada. Mas como aparentemente não é possível distinguir um larápio de um cleptomaníaco, só saberemos se ele não será preso em flagrante delito se apresentar documentos que comprovem sua patologia, caso contrário, ele será autuado como um assaltante qualquer”, afirma o delegado de polícia Ericson Salles Abufares. “Os cleptomaníacos têm uma característica comum aos ladrões: aproveitam-se do fato de ninguém estar observando para poderem agir. Geralmente, furtam objetos que cabem na palma da mão ou de pequeno valor econômico, como shampoos, perfumes e gravatas”, completa.
Tratamento Assim como o TOC, transtorno obsessivo-compulsivo, a cleptomania não tem cura. “Não se fala em cura, apenas se pensa em retirada dos sintomas. Existem estudos de terapia comportamental com acompanhamento dos pacientes por até dois anos que apresentaram bons resultados. A psicanálise também obtém sucesso, mas depende da motivação do paciente. Quanto à medicação, os inibidores seletivos da recaptação da serotonina, que é um neurotransmissor, têm sido utilizados com relativa eficácia”, esclarece Armando.
Esse transtorno causa sérios problemas sociais e afetivos, levando a problemas comprometedores para a vida do doente. A proporção entre sexos também é desconhecida, mas parece ser mais comum entre mulheres. A melhor estratégia, exercida pelos familiares e amigos, é estabelecer um diálogo aberto, tentando convencê-lo a conversar com os mais próximos sempre que possível e procurar um tratamento adequado, estabelecendo metas e prazos para que o paciente consiga desenvolver real controle de suas ações.
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