Comportamento
Mulher contemporânea
14/10/08
Após anos de luta pela independência, as mulheres enfrentam um grande dilema: escolher entre amor, família ou sucesso profissional
Por Vera Giglio
Um dos temas mais abordados pelas pesquisas atuais, sem dúvida alguma, é a rotina nada convencional de uma mulher do século XXI. Conquistas profissionais e pessoais, há anos ambicionadas pelas grandes feministas da história, hoje em dia trazem dúvidas às chamadas mulheres contemporâneas. Surpreendentemente, estudos apontam a insatisfação e preocupação de mulheres modernas e dedicadas à vida profissional em não constituírem um relacionamento estável, uma família ou uma vida com dependência emocional e afetiva. Atento a isso, o DNA Mulher conversou com profissionais e mulheres da nova geração sobre trabalho, dinheiro, frustrações, medos, relacionamentos e família.
Vida profissional
Do meio do século XX para cá, as mulheres impuseram para si, como objetivo pessoal, alcançar uma carreira estável, com os mesmo direitos masculinos. A difícil arte de conciliar trabalho, casa e família fez com que grande parte optasse entre um dos dois pólos. “Eu sempre digo que a mulher atual é uma mulher em transição - por causa de suas mães, que na maioria das vezes cuidavam de casa, dos filhos - e acaba não sabendo lidar direito com isso”, explica Mara Pusch, psicóloga e sexóloga da Universidade Federal de São Paulo. “Depois da queima do sutiã, a mulher conseguiu apenas acumular trabalho, e grande parte é perfeccionista, mas ninguém consegue ser 100% em todas as atividades, então, acabam optando pela carreira ou pela família. Essa decisão é muito cruel”, completa.
“Comecei a namorar aos 14 anos e, por causa disso, ao me formar na escola, fiquei um ano parada em casa, me sentindo triste, deprimida, vendo minhas irmãs e amigas cursarem a faculdade e exercerem a profissão que lhes dava prazer, mas o medo do fim de meu relacionamento me impedia de tomar outra atitude. Até que decidi que aquela situação não me fazia bem e que me dedicaria ao que gosto, ao meu trabalho, ao meu sonho”, conta a fonoaudióloga Patrícia Rodrigues, de 43 anos. Hoje, ela é solteira e não tem filhos, mas diz que consegue lidar com a situação.
Carreira ou família
O dilema entre carreira e família é cruel para a maioria das mulheres. “Não é nada fácil abdicar de sua profissão, sua independência, enfim, daquilo pelo que você tanto lutou para conseguir. Principalmente no meu caso, que tive não só apenas de deixar meu trabalho, mas também minha casa, amigos e família. Quando casei, me mudei para a Bahia, fiquei um ano desempregada. Mas não fiquei parada, fiz cursos e uma pós-graduação e, quando finalmente consegui um emprego, abri mão novamente da minha vida profissional, pois meu marido foi transferido de novo. Foi quando tivemos nossa primeira filha, logo em seguida, a segunda, e então optei por ser mãe em tempo integral. Mas volto ao mercado de trabalho assim que minha filha mais nova crescer um pouquinho”, relata a administradora de empresas e mãe Cinara Marques Souza Carvalho, de 34 anos.
Medo e insegurança
É natural de todo o ser humano passar por momentos difíceis, situações que tragam medo, insegurança e angústia. Porém, saber lidar com elas é o melhor remédio para isso. “Sempre quis ter uma família, mas família de verdade: o pai, a mãe, filho, cachorro, papagaio, almoço de domingo, e não simplesmente ser uma mãe solteira ou ter adotado uma criança. No entanto, com o tempo fiquei exigente com minhas escolhas. Aí, passa-se o medo, a insegurança de não construir uma família, de ficar sozinha, e a carreira acaba ficando em primeiro lugar. Hoje, com o auxílio de uma profissional, consigo administrar bem minha vida e ser feliz com meus amigos, minhas afilhadas, sobrinhos, trabalho e outras atividades”, diz a fonoaudióloga Patrícia.
A ajuda profissional em momentos decisivos é muito importante. As pessoas precisam quebrar esse tabu de que terapia só é necessária em casos extremos. Conversar sobre incertezas, medos e frustrações é sempre bom e, às vezes, amigos e familiares não são suficientes.
Você faz a escolha
O ser humano nasceu com uma dádiva, o livre arbítrio. Você toma decisões! Cabe a você decidir o seu destino. “Escolher a carreira, sucesso profissional e uma vida independente de outras, é possível sim. A mulher pode viver sozinha, sem problema algum. Ela supre suas necessidades afetivas com outras coisas: amigos, familiares, viagens, animais de estimação”, conta a terapeuta da Unifesp. “Ou seja, o ser humano nasce sozinho e morre sozinho também. As mulheres que optam pela vida conjugal e familiar podem e devem conciliar sua vida profissional e particular com a de seus filhos e marido, sem culpa. Elas têm que entender que não precisam ser perfeitas em tudo. Têm que ser tudo o que quiserem, sem medo, e sempre se lembrarem de que nunca é tarde para recomeçar!”, completa Mara.
Independentemente da opção que escolher - trabalho integral, como Patrícia, ou ser mãe, como Cínara -, a maior e mais admirável característica em uma mulher contemporânea é saber lidar de maneira saudável e tranqüila com suas decisões, pois elas – e todas as mulheres da nossa geração! – devem ter a consciência de que nunca é tarde para mudar.
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